Claudia Melli
Claudia Melli
1966 - São Paulo, SP | Brasil
Vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Claudia Melli desenvolve uma poética que transita entre o desenho, a fotografia e a pintura, explorando a fragmentação e a redistribuição do espaço nas imagens. Embora parta de fotografias retiradas da mídia, suas obras vão além do documental, criando camadas híbridas de significado. Seu trabalho questiona a veracidade da fotografia e desarticula temas como a paisagem clássica, onde a ausência de figuras humanas não implica a ausência do humano, mas evoca uma sensação de presença residual. Com temáticas recorrentes que incluem mares, ventos e o voo de aves, suas obras remetem à passagem do tempo e à natureza cíclica da vida, colocando o espectador em uma espécie de suspensão entre o real e o imaginário.
Formada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, nos anos 1990, Claudia Melli já apresentou seu trabalho em exposições de prestígio, como no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), sob curadoria de Luiz Camillo Osorio, e no Museu da República, além de mostras internacionais, como na Fundação Walter Wültrich, na Suíça. Suas obras integram importantes coleções, incluindo a do MAM-RJ, na Coleção Gilberto Chateaubriand, e outras instituições de destaque. A artista continua a investigar formas expressivas que misturem percepção e construção, criando paisagens que ressoam com a perplexidade diante da natureza
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09.Abr.2025 - 17.Mai.2025
É da nossa NATUREZA
Claudia Melli apresenta a exposição É da nossa natureza, uma série de pinturas inspiradas no universo sagrado afro-brasileiro de matriz iorubá. Com curadoria do babalorixá Márcio de Jagum, a mostra reúne nove trabalhos inéditos que transportam o espectador para paisagens que evocam a espiritualidade dos orixás. Orientada por Jagum, a artista compartilha sua percepção desse universo.
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22.Mai.2024 - 22.Jun.2024
Pinacoteca Botânica
A grande pintura inédita “Thanatos e Eros”, de Yolanda Freyre (1940), em óleo sobre lona com quase 6 metros de largura, e 1,20 m de altura, produzida entre 2022 e 2024, é o ponto de partida desta mostra que transforma a galeria Anita Schwartz em uma pinacoteca botânica. Esta obra icônica é uma síntese de sua história de vida e quase 60 anos de trajetória artística. Em torno desta obra central, Anita Schwartz reuniu 27 trabalhos que abordam a temática botânica em diferentes nuances, “cada um à sua maneira, em estilos e mídias variados: pintura, escultura, desenho, fotografia, objeto". Yolanda possui uma conexão profunda com a paisagem natural, que transborda sensibilidade. Ao nos apresentar a sua floresta, ela nos convida a conhecer um lugar sagrado, intimamente conectado às suas vivências.
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RESPIRA
Como se depreende de seus desenhos/pinturas/fotografias (como situar com precisão esses trabalhos fundados na delicadeza e no enigma?), Claudia Melli é fascinada por acontecimentos discretos: o modo como os murmúrios brotam à tona do silêncio; o arfar suave de um animal dormindo; as andorinhas que se lançam pelo azul até adejarem a superfície do mar; a superfície do mar, calmo e prateado, estilhaçado em uma miríade de ondas pequenas e ininterruptas; as danças circulares praticadas em pontos diversos do planeta, que se vão expandindo, ressoando, repercutindo, em direção ao desejo de juntar o mundo todo num mesmo ritmo de corpos e corações.
Para essa exposição, Respira, a artista produziu uma série de paisagens. Paisagens diferentes, não propriamente estranhas, mas pouco frequentadas: paisagens submersas, semelhantes as que encontramos no chão do mar perto da costa. Do mesmo modo como suas outras séries agarram nosso olhar, obrigando-o a descer, a atender o apelo da gravidade, essas pinturas sobre papel leva-nos para dentro de atmosferas densas e esverdeadas, habitadas por plantas longilíneas e translúcidas, que dançam molemente ao som de uma música inaudível, o que não impede que a imaginemos.
Claudia Melli escuta o mundo. Preocupada em realizar um registro do que nele é essencial, aproxima-se com todo cuidado e concentração possíveis, e dele volta com notícias animadoras. Pois contra um cotidiano veloz e massacrante, ela apresenta espaços e tempos calmos, além de ações elementares e básicas, como a prática de um desenho que pretende ir muito além da folha de papel. Com esse novo conjunto de trabalhos, Claudia oferece-nos a lição de que talvez a prática da quietude seja a estratégia fundamental para percebemos o elo íntimo entre a nossa respiração e a do mundo.
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ENTRE O PERTO E O DISTANTE
A distâncias configuram variações na paisagem que interligam lugares, pessoas, coisas. Três séries de Cláudia Melli – Tudo da vida é um país estrangeiro, Série Azul e Lugares onde nunca estive – rememoram, contraditoriamente, a estranheza de lugares comuns. Resultam da apropriação e edição de fotografias coletadas em diferentes mídias, interligadas por desenhos que as transformam, unem, separam e eventualmente apagam, para reinventá-las com a pintura. Encontram nas sutilezas do claro-escuro, na modulação dos contrastes, sinais de uma nostálgica experiência do sublime, levando ao limite uma crítica do funcionalismo que, embora descentrada e sujeita a múltiplas fraturas, permanece urgente e intempestiva.
Certa claridade no céu nublado, vigas de um telhado, fachadas, colunas, fiações, muradas – vestígios recolhidos no extrato em que se depositam as lembranças –, encontram-se em superfícies transparentes e sob o mesmo enquadramento. Paisagens vazias, em preto e branco, revisitam o desafio à memória e ao tempo lançados pela imagem fotográfica. Na trilha da verossimilhança aberta pela fotografia, estas pinturas e montagens buscam o imaginário, as recordações e, em meio ao habitual, vão ao encontro de um mundo ainda não visto, atemporal.
A fotografia, quando foi considerada uma comprovação daquilo que meramente representa, levou à substituição da imprecisão das lembranças pela certeza implicada na reprodução técnica. Porém, em contraste com o caráter indicial da fotografia, pintar significa, na tradição moderna, dar ao que é pintado um valor maior que ao que é visto. Com pinturas que tangenciam o fotográfico, Claudia Melli afirma a presença de um lugar que nunca “foi”, revisitando o conflito histórico entre razão e emoção, que também o cinema, radicalizou. Suas paisagens retomam o tradicional dilema entre real e imaginário ao buscarem uma conciliação entre a reprodução técnica e o artesanal, entre o cálculo implicado na edição e a intensidade emocional da manipulação do pincel.
Na série Tudo da vida é um país estrangeiro, a forma triangular de uma estrada deserta lançada em direção ao horizonte – um ícone da sociedade moderna, capitalista, e de sua autocrítica pela geração beat –, equivale à proa que, solitária, aponta um lugar que é pura distância a ser percorrida. As variações da luminosidade convocam à espera. Certa indefinição no encontro entre as pinceladas e a tentativa de, com a imagem, tocar o infinito mantêm o tempo em suspensão. O que virá? Como no clássico filme de Mario Peixoto, no qual uma embarcação à deriva navega o ilimitado, a estrada é um emblema do limite individual diante da natureza, recorrente representação romântica do que está por vir. Na Série Azul (onde a cor é imaginária), claro e escuro, alto e baixo, agitado e sereno, contrapontos mantidos por Melli em relativo equilíbrio, retomam certa transcendência revelada no encontro entre um vasto céu e o oceano. O vazio, porém, retira da imagem o que é excesso, ameaça apagá-la, reserva uma desejável pausa à visão saturada pela pragmática do mercado. Essa série abre vastos espaços para sutilezas que não encontram lugar nas classificações funcionais dos bancos de imagens digitais, cujos padrões estéticos, finalmente, demonstram a crescente vinculação da experiência do sublime ao consumo.
A arquitetura em labirinto, as proliferações virais, o policentrismo dos modelos de circulação da informação em rede marca o enfraquecimento da bipolaridade que prevaleceu no século 20, identificada com a contraposição entre natureza e cultura, conceito e afetos. A retomada por Claudia Melli da paisagem, um gênero que pretendeu superar essa dicotomia, leva a uma espécie de recuo do corrente fascínio pelo sublime tecnológico em benefício de antigos mistérios escondidos nas distâncias, entre o perto e o distante, na grandeza imprevisível que mantém toda construção e a própria cultura sob risco iminente.
Luiza Interlenghi
Rio de Janeiro, fevereiro de 2012
© 2018 by Exodus
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TUDO DA VIDA É UM PAÍS ESTRANGEIRO
O título dessa exposição poderia ter se perdido, já que talvez tenha sido escrito com a despretensão e a agilidade de um “espero que tudo esteja bem” ou “mande um beijo para as crianças”, passagens banais de cartas trocadas entre amigos e parentes. Não obstante, essa frase ligeira estava numa carta enviada por Jack Kerouac em 1949, ano em que o escritor norte-americano começou a reunir as notas que resultariam no livro-pergaminho On the road, datilografado em 1951, durante três semanas, em 35 metros lineares de papel manteiga. O livro colocou em combustão mais de uma geração de jovens ansiosos por ouvir alguém que, como eles, desconfiasse que o mundo estava morto e clamava por jornadas hedonistas que o reavivassem e, ainda, transformou cada página escrita por Kerouac em um objeto de culto e estudo, alvo de olhares atentos, dispostos a encontrar citações como a que foi emprestada por Claudia Melli nesta exposição.
No intervalo que existe entre 1949 e 2011, a frase foi reproduzida em inúmeros ensaios sobre o escritor e, o que talvez seja mais importante nesse caso, em coletâneas de citações e em reflexões sobre a vida contemporânea. Assim, de fragmento do discurso de um ícone popular da vida beatnik norte-americana e da contracultura mundial, fez-se sinopse de uma realidade marcada pela desterritorialização e estranhamento dos sujeitos. Para Claudia Melli, ainda, fez-se mote de uma busca por lugares comuns e, que, no entanto, não existem. Explico: na série homônima a artista nos apresenta estradas que avançam rumo ao horizonte, rasgando territórios virgens ou descampados que poderiam estar em qualquer parte, pois, a bem da verdade, não estão em parte alguma.
Assim é também com as outras séries expostas, com mares, depósitos, barrancos, bosques e grades imaginados pela artista e que pertencem a toda e a nenhuma parte. Não obstante, nós as reconhecemos e identificamos com alguma memória qualquer, uma reminiscência ou fantasia dos lugares que conhecemos ou gostaríamos de conhecer. Esse jogo de identificação e reconhecimento é reforçado pelo título das séries recentes de desenhos – Tudo da vida é um lugar estrangeiro (2011), que já conhecemos, e Lugares onde nunca estive (2010-11). –, os quais, se olharmos bem, poderiam ser convites de viagem, que, em preto e branco, se expandem e se retraem. Espalhados pela galeria, levam os olhares do público de um canto ao outro, montando, na sua imaginação, itinerários que poderiam começar a qualquer instante, bastando esquecer-se da chave de casa e do horário do trabalho – não seriam esses os lugares mais verdadeiramente estrangeiros que habitamos? – e partir rumo aos lugares onde nunca se esteve.
Aqui, o infinito do mar (série Azul, 2008-2011) se faz em linhas de nanquim no verso de vidros semi-foscos, separado do público pela espessura vítrea, que atenua contrastes e altera sutilmente a tonalidade dos traços. Mais ainda, porque aqui insuam-se reflexos sobre a imagem ou, mesmo, que as imagens não seriam senão reflexos de paisagens distantes. Atente, portanto, que a artista trabalha diretamente sobre o vidro, sem a firmeza garantida pelo atrito constante do papel de desenho. As paisagens se conformam delicadamente enquanto seca a superfície do vidro, até então sujeita a gestos de liquidez que se renova a cada traço sobre o nanquim aguado que por vezes enxagua toda a superfície de um céu. Assim como toda representação do mar é uma conformação instantânea capturada, que presume movimento logo antes e após as cenas, as imagens de Claudia Melli parecem ter sempre recém aparecido e prometem se desfazer com a fragilidade de suas linhas e manchas.
Há aí, certa analogia com a fotografia, que, se apenas revelada, mas não fixada pelo líquido químico adequado, pode borrar com um leve toque do polegar. Analogia reforçada pela procura do alto contraste em preto e branco e, claro, pela verossimilhança alcançada, menos pelo realismo dos traços, que em verdade são bastante gráficos, e mais pelo preciosismo do desenho, que adequa a espessura das pinceladas e a densidade das manchas a efeitos atmosféricos precisos. Constrói-se daí um arrebatamento, uma curva de encantamento que começa com a ilusão realista e termina com a percepção analítica de cada decisão da artista.
Ainda na chave da aparência de instantâneo dessas imagens, vale lembrar da super-produção Play Time (1967), na qual o humorista francês Jacques Tati representa os novos conjuntos de edifício comerciais construídos na periferia da Paris pós-guerras, com suas paredes envidraçadas, sustentadas por perfis de metal que parecem tirados dos projetos do arquiteto moderno Mies van der Rohe. Por esses palácios da nova eficiência corporativa, passeiam turistas distantes dos monumentos e pontos turísticos de capital francesa, que não se insinuam no skyline de torres transparentes, mas que, ainda assim, vez e outras surgem no filme em reflexos rapidamente conformados no abrir e fechar de portas e janelas de vidro. A torre Eiffel, a Sacré Coeur de Montmartre, reflexos fugidios e, ainda assim, suficientes para insunuar reminiscências da cidade histórica sobre essas construções comerciais sem história e genéricas (estrangeiras, digamos).
De forma análoga, poderíamos elaborar acerca dos trabalhos de Melli: o mar, a estrada, reflexos e sugestões de imagens que o olhar captura e lança à memória e ao afeto como pedidos de pausa, de imersão em um tempo outro que não o da vida contemporânea insessantemente lançada no reconhecimento simples e automático de lugares que todos precisam conhecer antes de morrer.
A fórmula se complexifica na série Lugares onde nunca estive, na qual, além de reflexão, há profundidade. Pois aqui o meio é o acrílico, sob o qual são coladas folhas de transparência com fragmentos de imagens tomadas da internet, quase todas publicadas como ilustração de matérias jornalísticas. Mesmo justapostas e combinadas, essas transparências cobrem apenas parte das chapas de acrílico, e suas linham se expandem em linhas de nanquim – agora aplicadas sobre o papel –, ou se duplicam noutras linhas feitas sobre o plano frontal dessas mesmas chapas. Há, portanto, três camadas translúcidas que interagem no desenho de lugares que nem bem são aqueles fotografados pelo fotojornalista nem bem os que Claudia Melli poderia ter imaginado sozinha. De certa maneira, a artista assume o papel de primeira espectadora da obra, começando o jogo de identificações e combinações mnemônicas diante de fragmentos de imagens de paisagens.
Por tudo isso, é difícil saber qual será o próximo convite feito por Claudia Melli em suas, digamos, propostas de viagens para dentro de si. Sabemos apenas que cada um deles exigirá seu próprio suporte, escala e materialidade, que a reflexão poderá estar sugerida ou se fazer explícita e, em todo caso, que o traço do desenho da artista deverá seguir sem pudores de seu preciosismo e da sedução que provoca. Já os lugares a se conformarem são quase ilimitados, pois, se On the road começa pela hipótese de reencatamento do mundo através de uma jornada sem limites e potencialmente auto-destrutiva, ele termina com um mundo terminantemente impregnado de lembranças.
Paulo Miyada
Maio de 2011
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À CAPELLA
O canto à capella é aquele entoado sem o uso de qualquer instrumento. Voz solitária. Esta remissão a um tipo de canto que nos endereça um chamado para um estado de quietude e interiorização pode ser visto como um gesto, mesmo que prosaico, que caminha na contramão de um mundo atual perpassado pelo ruído incessante. É desta natureza, mais próxima do murmúrio, de que nos fala as obras de Claudia Melli expostas na Galeria Eduardo Fernandes na mostra “Capella”.
Antes de qualquer gesto interpretativo é preciso recordar o processo de realização dos trabalhos da artista no que tange a técnica. Lembremos que o termo técnica, para os gregos antigos, significava arte. Ou seja, a téchne estava intimamente ligada ao processo de construção de uma poética, como mais tarde vai retomar Heidegger em seu texto “A Questão da Técnica”.
Assim, as escolhas “técnicas” dos artistas estão intimamente ligadas ao “conteúdo” da obra. Quando enxergamos de longe um trabalho de Claudia cremos que estamos diante de uma fotografia. É somente um olhar mais atento e próximo que vai revelar que não se trata de uma foto, mas sim de desenho com nanquim sobre vidro. Esta conquista de um estado ilusório se dá através da alta precisão do desenho, do contraste entre o preto e o branco, entre claro e escuro. Mas o que tal técnica quer dizer, o que significa desenhar com nanquim sobre vidro no lugar de fotografar, mas ainda assim evocar o ato fotográfico?
Esta pergunta é importante para chegarmos ao sentido do trabalho. O tempo que leva para a realização de cada obra (sempre única e não reprodutível), a concentração e o cuidado exigidos, o preciosismo que tal método demanda, todos estes elementos rimam com trabalhos nos quais a solidão se faz presente, nos quais nunca há presença de seres humanos.
Tal modo de fazer encontra eco nos espaços vazios, permeados por presenças ausentes, ou mesmo paisagens que evocam certa melancolia, lembranças de um lugar já visto. Aí reside o parentesco com a fotografia, símbolo daquilo que congela um tempo e deflagra uma memória palpável de algo que já passou.
Na série “Nem todo silêncio”, na qual vemos balanços em movimento, o que nos é dado é uma cena familiar, que deixa entrever que alguém já esteve ali, uma passagem humana se deu, mas o que se opta em registrar é o vestígio de uma presença ausente, o antes e o depois, não o momento central do acontecimento. Tal escolha, mais uma vez, se revela como uma afirmação na via oposta de tempos que fazem o elogio incessante da lógica do espetáculo.
A faculdade de lembrar, demandada por tais desenhos, é irmã da capacidade de fazermos com que o presente, mesmo que não esteja preenchido por afazeres, possa estar habitado. Ou seja, lembrar, imaginar, é povoar a vida subjetiva de maneira forte sem que necessariamente tenhamos que “fazer” coisas. A época atual, bem sabemos, nos exige, tal como uma ditadura invisível, que sejamos produtivos, que o nosso desempenho seja admirável, importando antes a quantidade de coisas que colocamos no mundo, ou nos nossos currículos, do que exatamente a integridade daquilo que fazemos. Tudo isso está intimamente ligado à uma certa lida com o tempo.
As estradas são símbolos de lugares de passagem, e o horizonte remete a um ponto a ser alcançado. As estradas de Claudia nos levam para lugar nenhum, ou seja, não obedecem ao imperativo de andar sempre, e para frente, é claro. Já as suas árvores, da série “Capella”, nos reenviam à uma atitude contemplativa frente à uma paisagem silenciosa e melancólica, instaurando uma atmosfera próxima àquela que permeia as palavras do conto de James Joyce.
Se fossemos pensar em uma temporalidade presente na obra de Claudia, a mesma seria menos regida chronos, e mais próxima de kairós. Os gregos antigos possuíam duas palavras para a moderna noção de tempo: chronos e kairós. Enquanto a primeira era usada no contexto de tempo cronológico, sequencial e linear, em relação ao tempo existencial os gregos usavam a terminologia kairós e acreditavam nele para enfrentar o cruel e tirano chronos. Enquanto o primeiro é de natureza quantitativa, kairós possui uma natureza qualitativa. Sabemos bem que vivemos, diariamente, com os inúmeros “cronogramas”, sob a ditadura de chronos. Kairós é uma inflexão neste regime. A arte é um âmbito que pode, ainda, nos fazer não esquecer que o tempo é múltiplo: não é somente chronos, mas é também kairós, tempo oportuno, da ocasião que se pega ou se deixa, do não previsto, da surpresa, do que escapa ao controle dos cálculos.
Os vazios instaurados pela artista, seu vínculo com um partido contemplativo, sua ambiguidade que introduz a semelhança para fazermos pensar na diferença, suas estradas e mares que não possuem bússola, mapas, pontos de chegada, toda esta gramática poética faz com que Claudia Melli construa, sob a égide do murmúrio, uma obra de resistência.
Frente aos desenhos da artista somos induzidos a um momento de pausa. O silêncio se impõe. E aí, quem sabe, possa surgir a chance de escutarmos a nós mesmos e os pequenos murmúrios abafados por um mundo que grita sem saber por quem deseja ser escutado. Que corre freneticamente sem saber exatamente onde vai chegar. Num cenário assim, a fala baixa, o tempo mais lento, surgem como maneiras potentes de se instaurar uma diferença na realidade ao redor. “Capella”, de Claudia Melli, possui, na sua delicadeza, esta potência rara e tão necessária.
© 2018 by Exodus
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E AQUELES QUE FORAM VISTOS DANÇANDO
E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam ouvir a música*
*Friedrich Nietzsche
Neste seu novo trabalho a artista Claudia Melli mantém a sua já característica semelhança transversal - mas apenas ilusória - com o reino da fotografia, através da captura e representação, aparentemente objetivas e realistas, da perspectiva de um lugar exterior. Este nos aparece, ao primeiro olhar, como um espaço físico e geográfico determinado, e é com este espírito que a artista nos tem até aqui revelado paisagens predominantemente despidas de sujeito, de relação e de história; mas carregadas de humanidade, de sentimento, e de um tempo intenso, difuso e intemporal.
Muitas vezes, os próprios elementos centrais de suas obras - nuvens, carris, rodas gigantes, o mar -, sérios representantes simbólicos do imparável movimento de todas as coisas, e da suprema impermanência que tudo habita, nos apareciam estáticos num lugar parado, presos num tempo imanente, como que adormecidos, suspensos, retirados do mundo. Talvez a notória ausência de sujeito nessas obras do passado ainda recente da artista, contribuísse fortemente para a ilusão de ali se retratarem sobretudo paisagens do mundo físico, e não ambientes e lugares da interioridade, do psicológico, e de um outro tempo que não o cronológico. Mas já eram outros os movimentos e as ambiências, os momentos e as paragens, que não aqueles da materialidade, do sólido, do concreto...
Agora, parece-nos mais claro ainda, frente a esta nova obra de imensa força, fluidez e movimento - ao mesmo tempo circular e etérea: um percurso mágico de livre desdobramento e expressão de uma individualidade subjetiva, mas também vitalmente animado com um forte valor primordial e arquetípico, e de cunho claramente transpessoal -, que as paisagens de Claudia Melli nos cantam e interrogam de uma beleza e de uma dramaticidade que habitam profundas em nossos mais sutis domínios emocionais, fantásticos, imaginativos e sensoriais.
Os perfeitos retratos que a artista revela e pinta - com tal força e realismo que jamais se duvidará da real e sólida existência desses não-lugares, algures, num espaço tão próximo e profundo quanto esquecido e distante - só poderiam habitar o vidro, senhor e suporte da mais suprema transparência. Pois são eles mesmos registros lúcidos e especulares, feitos com a maior entrega, a maior compreensão e a maior clareza, das oceânicas e majestosas forças que nos rodeiam e nos habitam. Se a natureza é inalcançável e suprema, e seus caprichos e desígnios insondáveis, ela é também espelho do maior que somos, e assim nos revela a potência e a beleza extremas que nos compõem, e que aguardam, pacientemente, a nossa mais vital dança: em gestos de libertada entrega, consciência e descoberta.
A própria artista menciona o Kairos - o tempo supremo, mais elevado - por oposição ao Kronos - o tempo mensurável, pequeno -, como elemento presente no seu trabalho: "...uma relação mais orgânica com o tempo...", como diz. Pois nós arriscamos aqui sublinhá-lo como uma transversal constante e paradigmática de todo o seu trabalho. E se aqui surge Pina Bausch como inspiração, símbolo e sujeito - coreógrafa criativa e lúcida como poucas, intérprete maior do Zeitgeist de seu tempo -, e se Friedrich Nietzsche empresta seu famoso paradigma ao título desta obra, ambos reforçam e reafirmam estarmos no território do sutil, do primordial, daquilo que apenas se ouve, mas que logo nos transforma assim que se escuta. Afinal, é a nossa própria voz que ecoa, feminina, fecunda, etérea e íntima, distante...
Então, a insanidade que Nietzsche refere e Pina Bausch ilustra - aqui desdobrada num fio de movimento simultaneamente condutor e libertário, sequencial e improvisado, de uma dança em que o bailarino se repete e avança, mas em que jamais é o mesmo, pois vibra, varia e muda, sempre na inconstância transformadora e livre do momento presente -, essa loucura que apenas mal escutamos, distraídos que somos nas manobras repetidas dos ponteiros pequenos de um relógio - presos a um julgar ser e a esse fazer -, é afinal tudo o que de maior constituímos, seremos, ambicionamos.
E tudo isso nos compõe e nos habita, e claramente se manifesta na vitalidade e na existência solta do próprio corpo. Ou, como escreve Claudia Melli: "A linguagem do corpo ultrapassa barreiras de língua e de cultura. É a fala mais potente e honesta que se pode ter. E dançar, é como ter asas..."
Jorge Emanuel Espinho