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Duda Moraes – Entre force et fragilité, e a continuação do gesto

Duda Moraes explora em seus trabalhos o gesto, a composição, formas e cores. A natureza é um ponto de partida para esse olhar, as flores com sua ambivalência entre força e fragilidade permitem um amplo campo de possibilidades na expressão da artista, tanto quanto o gesto rápido porém preciso quanto às cores vibrantes que surgem a partir da mistura de formas.

DE 10.Jul.2024 A 24.Ago.2024

Leia o texto da Exposição

As flores têm sempre razão

 

Alegre e caótico, a ponto de invadir, o transbordar quase intrusivo – e até desavergonhado – das formas, triunfa. Duda Moraes cria profundezas e efeitos deslumbrantes que submergem nossas retinas de forma persistente, formadas por resplandescências e tonalidades planas às vezes opacas e fechadas. Tentamos achar um caminho nesse universo extenso formado por uma sucessão de camadas. As escalas se proliferam, do macro ao micro, e surge uma ambiguidade: entre a força e a fragilidade, assistimos uma dança, tão radiante quanto perturbadora.

 

Como se a tinta ainda não tivesse secado, a cor parece fraquejar, desbotar e se desintegrar. A partir de gestos esboçados e contornos realçados, as cores se espalham. As flores estão contidas em vasos, que tendem a desaparecer, tanto Duda Moraes desenvolve um trabalho expressionista que vai além da representação literal. "Eu não pinto flores, são as flores que me fazem pintar", diz ela. Mas a floresta tropical não é tão colorida quanto suas grandes pinturas nos fazem acreditar: o clima, a umidade e a luminosidade ardente do Brasil difundem variações de cor às vezes extremas. Essa é a quintessência da pesquisa de Duda Moraes. Ela sempre se inspira em imagens coletadas e logo se desprende delas, pela ação do gesto em conjunto com as cores. Antes, essas imagens eram inspiradas pela nostalgia de um país distante: a saudade a aquecia. Desde sua chegada na França em 2017, o processo criativo de Duda Moraes atravessa a maturidade. Sua pintura é constantemente habitada pela lembrança carioca e sua atmosfera quente e abafada. Em fase de afirmação, ela agora se apresenta de uma nova maneira a sua cidade natal, o Rio de Janeiro. Sua identidade foi impregnada de outra cultura: o clima continental permeia sua prática artística e desloca gradualmente a proposta. Hoje, percorremos os meandros de uma pintura que revela a marca das cores usadas sucessivamente. Percebemos então uma memória da pintura: Duda Moraes acumula estratos de formas, revelando a evolução tectônica de sua pintura. Como um limiar, o corpo entra na tela. Esse portal é composto por um pano de fundo abstrato coberto por estampas figurativas. A sensação de camadas e a aparição da luz vêm das profundezas. Às vezes, as fatias fluorescentes são refletidas nas paredes, criando halos em volta das flores de íris, narcisos, peônias, arums ou tulipas-papagaio. Pouco a pouco, a artista se desloca. Ela experimenta pintar em seda ou aborda a cor pelo prisma de novas técnicas, como a cerâmica. Os tecidos são recortados e as flores aparecem na forma de colagens têxteis, dessa vez baseadas em padrões europeus. Por meio desses experimentos, Duda Moraes disseca, desmembra e amassa o processo pictórico.

 

No coração da exposição, um longo políptico funciona como um quebra-cabeça intercambiável. Panorama imersivo de um gesto continuo, a pintura fragmentada nos dá a sensação de estarmos na floresta, pertinho das plantas. A artista brinca com o acaso ao reunir seis pinturas criadas independentemente umas das outras, para finalmente produzir essa selva tropical e ir além do formato clássico da pintura. Ela estica a tela no chassi, pesa a forma e visualiza, antes de pintar, o espaço ao redor da rigidez da moldura. Preenchida da luz do hemisfério norte, ela se distancia do que sempre a nutriu e se interessa pelas vegetações europeias, mais tímidas e silenciosas. Assim, desenvolve então um interesse por remendos, patchworks e pela experiência têxtil abordada através do prisma da pictorialidade. A costura lhe permite fixar a composição, canalizando o gesto. Seu olhar tropical é influenciado por um material que ela vê como tipicamente ocidental, composto de pedaços coletados e retalhos de tecidos grossos e de cor escura. A vitalidade da artista se baseia em um constante vai-e-vem, uma travessia mental do Oceano Atlântico, e se curva até a descoberta de outros materiais, para observar as reações da fibra ao fluxo incessante de caules, pétalas e botões. Em frente às obras têxteis, três telas menores retratam flores europeias, que parecem mais decorativas. Passamos por essa metamorfose. Por fim, contemplamos um ardor desesperado, tão movimentado quanto a própria vida, fustigada por sentimentos contraditórios. Duda Moraes responde ao que a pintura lhe pede, com gestos rápidos, profusão incessante e uma intensa prática de ateliê. Ela sempre retorna à pintura, desossando o motivo floral para criar novos espaços que nos envolvem. A exposição reúne um conjunto de formas interconectadas, as hastes navegam de agora em diante de uma escala para outra, de uma superfície pendurada a uma suspensão, de uma imagem fantasiada a uma realidade.

 

Élise Girardot


Quero girar para o sol , 2024
Óleo e acrílica sob tela


Iris , 2024
Óleo e acrílica sob tela


Os lírios se abraçam , 2024
Óleo e acrílica sob tela


Dans la forêt , 2024
Óleo e acrílica sob tela


Flores em rosa , 2024
Óleo e acrílica sob tela


Floresta rosa e laranja , 2024
Óleo e acrílica sob tela


Narcisse jaune , 2024
Óleo e acrílica sob tela


Jardin des pivoines , 2024
Óleo e acrílica sob tela


Tulipe perroquet , 2024
Óleo e acrílica sob tela


Les couleurs qui tombent , 2022
Composição de tecidos recuperados costurados com fio polyester fluorescente


Le grand tissu , 2021
Composição de tecidos recuperados costurados com fios variados