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Andreas Albrectsen Superbloom

Anita Schwartz Galeria de Arte apresenta Superbloom, exposição individual de Andreas Albrectsen no dia 20 de abril de 2022, 16h às 19h. Na exposição, o artista apresenta três desenhos inéditos de grande formato produzidos no Brasil ao longo de três meses de residência artística. A pesquisa do artista promove reflexões sobre a representação da natureza digitalizada, assim como, de objetos referentes a ícones dos ambientes informáticos: imagens de um solitário cursor, “folders” e documentos. Em seus desenhos, Andreas combina elementos históricos de construção de naturezas mortas com dados contemporâneos, presentes nos aparelhos digitais, propondo assim uma forma de repensar e questionar as discrepâncias entre o mundo real e o hiper-real.

DE 20.Abr.2022 A 04.Jun.2022

Leia o texto da Exposição

Superbloom

Uma vez a cada década, um raro fenômeno botânico acontece no Vale da Morte na Califórnia. Como resultado espetacular de uma incomum estação chuvosa, grandes quantidades de sementes de flores silvestres que ficaram dormentes no solo do deserto encontram as condições certas para germinar, brotar e florescer. É um superbloom. Intuitivamente, a ideia de um deserto florescente parece contraditória. Como impossibilidade botânica, é um contraste radical com a percepção geral da paisagem seca e infértil do deserto. No entanto, é surpreendentemente real.

O exercício semelhante de criar visões de ideias conceitualmente contrastantes, que questionam nosso senso de autencidade, está no cerne da poética da obra do artista dinamarquês-brasileiro Andreas Albrectsen. Trabalhando em torno da abordagem conceitual do desenho, Andreas examina a cultura visual de nosso tempo, suas referências históricas e paradoxos interligados – predominantemente com a Internet e sua experiência de usuário, como seu ponto de partida teórico. Através do uso de imagens digitais de sistemas operacionais, ferramentas de busca e mídias sociais, os desenhos surgem do cenário de uma tela, mas também são manifestações físicas de ideias e tempo. Através de um processo lento, meticuloso e extremamente detalhado, a acumulação de tempo se incorpora ao desenho produzido de Albrectsen. O artista transforma magistralmente a imagem digitalmente pixelada em um desenho em pastel, sempre mantendo estritamente uma paleta em tons de cinza. Em suas obras, Albrectsen utiliza um pó de pastel seco particular, que ele mesmo mói e transforma em pigmento fino, aplicado no papel com pinceladas suaves e repetitivas. Essa técnica manual permite que os desenhos encapsulem uma expressão porosa e dissecada – uma textura similar à sensação de areia do deserto. Essa sutil relação associativa é algo que Albrectsen gosta de enfatizar em sua metodologia de trabalho, sempre tentando traçar paralelos simbólicos com o meio e os materiais que utiliza.

Para sua primeira exposição individual na Galeria Anita Schwartz, Andreas Albrectsen apresenta um novo corpo de obras composto por três desenhos em pastel de grande escala, cada um com o tamanho impressionante de 141 x 218 cm. Todos foram produzidos durante uma residência de três meses no Rio de Janeiro. Os desenhos apresentam versões ligeiramente diferentes de imagens-perfeitas de paisagens desérticas usadas como fundo de tela de computador de um desktop. Conceitualmente, os trabalhos combinam elementos do gênero da natureza-morta com o ambiente digital do desktop, criando uma vanitas contemporânea.

Essa justaposição está notavelmente presente nos dois desenhos Untitled (Folders IV), 2022 e Untitled (–), 2022. À primeira vista, há algo peculiar a respeito das composições com documentos brancos e ícones de arquivo em pó de pastel que ficam pendurados no topo do desértico desktop. Os ícones acumulados formam silhuetas indefinidas - contrastadas fortemente com as porosas e sombrias dunas. Em Untitled (Folders IV) a composição delicadamente delineada, por mais abstrata que possa parecer, refere-se à icônica pintura a óleo do Renascimento do Norte, Os Embaixadores, (1533), de Hans Holbein, o Jovem. O retrato duplo é considerado o precursor do estilo posterior chamado stilleben, ou mais conhecido, como natureza morta. Outro elemento que se destaca é a ampulheta. Como um medidor arcaico do tempo, e um símbolo clássico de memento mori, a ferramenta é reduzida a um cursor pixelado entre o espaço do desenho e do desktop.  Como recipiente real de areia, a ampulheta se relaciona com o cenário do deserto e os seus grãos a partir da superfície coberta em pó de pastel.

Untitled (–) 2022 também faz referência a uma pintura clássica da natureza morta, o trabalho de Cornelis Gijsbrecht intitulado: 'Trompe l'oeil. Rack de cartas com instrumentos de cirurgião barbeiro, (1668). Mais uma vez, a composição da pasta de arquivos apresenta-se como uma aparição no deserto desolado . No lado esquerdo, Albrectsen implementou um pequeno ícone semelhante à ferramenta digital da lupa, indicando a ação de zoom out – metáfora comum para um estado mental de não presença do ser. Na terminologia do computador, o ícone da pasta remete a interface do usuário (UIM) e é projetado para desencadear reconhecimento imediato. Ironicamente, esses ícones UIM representam objetos obsoletos e historicizados distantes da realidade imaterial que vivemos.

Em Untitled (Poof), 2022, esse sentimento fantasmagórico de desaparecimento ou erosão digital também está presente. Em uma cena  semelhante ao deserto desabitado, uma nuvem branca singular de cartoon, projetada digitalmente, e anexada a um cursor em forma de flecha, paira sobre as dunas como um “gênio”. O ícone representa o descarte de um elemento de tela desconhecido para a lixeira assim como a evaporação do calor do deserto.  Tendo em mente que as telas de computador consistem em 70% de areia de sílica - uma entidade primária dos escritórios do Vale do Silício - Albrectsen traça um paralelo com a areia do Vale da Morte e a de nossa cultura de escritório digitalizada, afogando-nos em pergaminhos on-line sem fim.

Ao olhar para os três desenhos instalados – esparsa e amplamente dispostos no espaço – não se pode deixar de traçar paralelos com a arquitetura do cubo branco circundante e a metáfora interna do deserto. Como na natureza, o espectador deve andar a uma certa distância para olhar mais de perto os objetos que aparecem no horizonte. Mas ao fazê-lo, o espectador pode caminhar em direção a algo que nunca esteve lá em primeiro lugar, despertando o sentimento irreal de uma miragem surreal distante.

O novo corpo de trabalho de Albrectsen não é tanto um lembrete da transitoriedade da vida como um comentário sobre a presença eterna de nossos avatares e informações pessoais que viverão para sempre digitalmente. Como o vazio visível em torno de uma página fotocopiada de uma máquina Xerox, ou a tela de cinza monótono de um  desktop dos primeiros sistemas operacionais Macintosh; os desenhos de Albrectsen permanecem assombrados por sua origem contextual. Mas, assim como no processo de reprodução em massa, a perda geracional de informações ao longo do tempo eventualmente permite uma presença visual alternativa e mais autônoma.

O simbolismo aparentemente inesgotável do deserto e a estrutura teórica estética que representa torna-se a musa de Albrectsen à medida que ele se aprofunda em suas evidentes analogias com a internet. Ao longo da história da filosofia e da literatura, e não menos na retórica pós-modernista, a paisagem do deserto tem sido objeto de centenas de metáforas e contos de distopia que abrigam um sentido geral de imanência filosófica: o deserto como lugar árido, um local de extremidade geográfica, um lugar sagrado e bíblico, o berço do homem, uma metáfora para a paralisação infinita,  de solidão e desesperança, um terreno existencial, uma topologia especulativa (Nietzsche), um local de desterritorialização (Deleuze e Guattari), um objeto de puro, mas seco desejo estético [1].

Dentro desse contexto e do fenômeno do superbloom – do qual a exposição toma seu título – Albrectsen apresenta seu ponto de vista. Comparando a interminável pesquisa na internet com o deserto: um lugar infinitamente enganoso, sem mapas ou direções claras, um lugar apático que consome e desgasta; os desenhos apresentam um elemento de perda e melancolia. Mas, ao introduzir a situação vibrante do superbloom; um resultado natural da maior resiliência ecológica, Albrectsen cria esse contraste acentuado como efeito de excitação, sugerindo a possibilidade de mudança radical.

Aukje Lepoutre Ravn

[1] Aidan Tynan: O Deserto na Literatura Moderna e Filosofia - Estética do Deserto (2020, Edimburgo University Press, pp. 1-3.

 

Superbloom

Once in a decade, a rare botanical phenomenon happens in California's Death Valley. As the spectacular outcome of an unusually wet rainy season, large quantities of wildflower seeds that have lain dormant deep down in the desert soil meet their right conditions to germinate, sprout and blossom. It is a superbloom. Intuitively the idea of a blossoming desert seems contradictory. As a botanical impossibility, it is a radical contrast to the general perception of the dry and infertile desert landscape. Yet it is surprisingly real.

A similar exercise of creating visions of conceptually contrasting ideas that question our sense of authenticity lies at the heart of Danish-Brazilian artist Andreas Albrectsen’s work. Revolving around a conceptual approach to drawing, Albrectsen examines the visual culture of our time, its historical references, and interlinked paradoxes – predominantly with the Internet and its embedded user experience as his theoretical point of departure. With his use of digital images from operating systems, search engines and social media, the drawings spring from the screen landscape but are also physical manifestations of ideas and time. The of time is also very present in Albrectsen’s drawing technique. Through a slow, meticulous, and extremely labour intensive translation process, Albrectsen masterfully transforms the digitally pixeled image to a pastel drawing, always kept in a strictly greyscaled palette. In his works, Albrectsen uses a particular dry pastel powder, which he grinds into fine-pigmented dust and apply it on the paper with repetitious gentle brushstrokes. This technique enables the drawings to encapsulate a porous and desiccated expression – a texture similar to the feel of desert sand. This subtle associative relation is something Albrectsen likes to emphasize in his work methodology, always trying to draw symbolic parallels to the medium and the materials he uses.

For his first solo show at Anita Schwartz Gallery, Andreas Albrectsen presents a new body of works consisting of three large-scale pastel drawings, each an impressive size of 140 x 218 cm. They were all produced in Rio de Janeiro during a 3-month residency. The drawings present slightly different versions of picture-perfect desert landscapes used as a desktop background on a computer screen. Conceptually, the works combine elements of the still-life genre with a present digital desktop environment, creating a modern-day vanitas.

This juxtaposition is notably present in the two drawings Untitled (Folders IV), 2022 and Untitled (–), 2022. From first sight, there is something peculiar about the compositions of the white documents and folder icons that is hovered together on top of the pastel powdered desert desktop. Together, the accumulated icons form undefined silhouettes - sharply contrasted against the porous and shadowy dunes. In Untitled (Folders IV) the delicately outlined composition, abstract as it may look, refers to the iconic Northern Renaissance oil painting 'The Ambassadeurs' (1533) by Hans Holbein the Younger. The double portrait is considered the frontrunner to the later style named stilleben or more popularly called 'Nature Morte' (dead nature). Another element that stands out is the hourglass. As an archaic measurer of time, and a classical memento mori symbol, the tool is reduced to a pixelated pointer stuck in space in between mediums. As an actual container of sand, the hourglass relates with the desert scenery and the dust grains from the pastel covered surface.

Similarly, Untitled (–) 2022 also references a classical Still life painting. That of Cornelis Gijsbrecht titled: 'Trompe l´oeil. Letter rack with a Barber surgeon's instruments, (1668). Again, the folder composition appears as an apparition in the desolated wasteland . On the left side, Albrectsen has implemented a small icon resembling the digital tool of the magnifying glass, indicating the action of "zooming out" – also an often-used metaphor for a non-present mental state of being. In computer terminology, the folder icon is referred to as a User Interface Metaphor and is designed to trigger immediate recognition. Ironically these UIM icons now represent obsolete and historicized objects far away from the immaterial and contactless reality of the present day.

In Untitled (Poof), 2022, this ghostlike sense of disappearance or digital erosion is also present. In a similar uninhabited  desert motive, a singular white cartoonish cloud, digitally designed, and attached to an arrow-shaped curser, is hovering over the dunes like a genie. The icon represents the disposal of an unknown screen element, evaporating from the desert heat and into the trashbin. Keeping in mind that computer screens consist of 70% silica sand - a primary entity of Silicon Valley offices - Albrectsen draws a parallel to the sand of the Death Valley and that of our digitalized office culture, drowning us in endless online scrolls. Absolutely no detail goes unnoticed by Albrectsen.

When looking at how the three installed drawings – sparsely and widely spread out in the space - one cannot help to draw parallels to the surrounding white-cube architecture in their internal metaphor of the desert. Like in nature, the viewer must walk a certain distance to look closer at the objects appearing on the horizon. But by doing so, the viewer might walk towards something which was never there in the first place, awaking this unreal feeling of a distant surreal mirage.

Albrectsen’s new body of work is not so much a reminder of the transience of life as it is a comment on the eternal presence of our avatars and personal information that will live on forever digitally. Like the visible void surrounding a photocopied page from a Xerox machine, or the monotone grey desktop display  from early Macintosh operating systems, Albrectsen’s drawings remain haunted by their contextual origin. But just as in the process of mass reproduction, the generational loss of information over time eventually allows for an alternative and more autonomous visual presence.

The seemingly inexhaustible container of symbolism that the desert and its aesthetic theoretical framework represent becomes Albrectsen’s muse as he digs deeper into and around its evident analogies to the internet. Throughout the history of philosophy and literature, not least in postmodernist rhetoric, the desert landscape has been the object of hundreds of metaphors and tales of dystopia harbouring an overall sense of philosophical immanence: The desert as this arid wilderness, a site of geographical extremity, a sacred and biblical place, the birthplace of man, a metaphor for infinite standstill, of solitude and hopelessness, an existential terrain, a speculative topology (Nietzsche), a site of deterritorialization (Deleuze and Guattari), an object of sheer (but dry) aesthetic desire [1].

Staying in this context but returning to the introductory mentioning of the superbloom – from which the exhibition also borrows its title – Albrectsen makes his point. Comparing the endless internet search with the desert: an infinitely misleading place, with no maps or clear directions, a place that will consume you and leave you dead or drained , there is an element of loss and melancholy in the drawings. But by introducing the vibrant phenomenon of the superbloom, a natural outcome of the outmost ecological resilience, Albrectsen creates this sharp contrast, like a tiny rippling effect of excitement, suggesting the possibility of radical change

 

Aukje Lepoutre Ravn

[1] Aidan Tynan: The Desert in Modern Literature and Philosophy - Wasteland Aesthetics (2020, Edinburgh University Press, pp. 1-3.

 

 

 

 

 

Andreas Albrectsen

Andreas Albrectsen

Andreas Albrectsen
Untitled (Folders IV) , 2022
Pastel sobre papel

Andreas Albrectsen
Untitled (Folders IV) , 2022
Pastel sobre papel

Andreas Albrectsen
Untitled (Poof) , 2022
Pastel sobre papel

Andreas Albrectsen
Untitled (-) , 2022
Pastel sobre papel

Andreas Albrectsen