MARMITA
Companheira do operário no chão de fábrica e do trabalhador em trânsito pelas grandes cidades, a marmita serviu de emblema político já na campanha presidencial de Eurico Gaspar Dutra, em 1945, quando o “marmiteiro” virou personagem de um dos jingles mais lembrados da história eleitoral brasileira. De lá para cá, o recipiente nunca saiu de cena: condensou, ao mesmo tempo, a precariedade e a dignidade do trabalho, a escassez e a garantia do sustento.
DE 23.Jun.2026 A 08.Ago.2026
MARMITA
Ulisses Carrilho
Marmita toma um objeto coadjuvante da vida cotidiana brasileira como dispositivo para pensar trabalho e desejo. Reunindo artistas de diferentes gerações, num regime transhistórico, a exposição parte da marmita como artefato social capaz de condensar transformações profundas na história cultural do Brasil ao longo do último século.
Entre utensílio doméstico, recipiente cotidiano e tecnologia de sobrevivência, a marmita atravessa regimes distintos de valor. Associada historicamente à classe trabalhadora, aos deslocamentos urbanos e à economia do cuidado, ela emerge na exposição como um objeto cuja circulação permite observar as formas pelas quais a fome, o amor e o corpo foram organizados socialmente no país.
A presença da marmita na vida política brasileira remonta ao início do século XX e foi tema de um dos mais paradigmáticos jingles eleitorais da política brasileira. Durante a campanha presidencial de Eurico Gaspar Dutra, em 1945, o chamado “marmiteiro” já aparecia como figura simbólica do trabalhador urbano em ascensão. Desde então, o objeto passou a ocupar uma posição singular na imaginação nacional: simultaneamente ligado à precariedade e à dignidade do trabalho, à escassez e à possibilidade de sustento.
Ao longo das décadas, entretanto, a marmita sofreu sucessivas transformações simbólicas. Se antes remetia ao operário, ao chão de fábrica ou ao trabalhador em trânsito, hoje ela reaparece como produto de consumo associado à cultura fitness, à administração do corpo e às economias contemporâneas da performance. Paralelamente, a palavra “marmita” foi absorvida pelo vocabulário afetivo e sexual brasileiro, convertendo-se em metáfora para relações não monogâmicas, arranjos informais de desejo e formas ambíguas de pertencimento. Entre alimento e erotismo, entre nutrição e fetiche, o objeto passa a operar como um condensador de fantasias sociais.
Livremente inspirada pela extensa coleção de marmitas em porcelana pertencente à galerista Anita Schwartz, a exposição investiga justamente essa transvaloração tomando partido do acervo da galerista e colecionadora. Como certos objetos migram entre classes sociais, preservando vestígios das estruturas que os produziram? E de que modo a cultura transforma instrumentos de sobrevivência em signos de distinção? Em última instância, o que acontece quando um objeto associado ao trabalho e à necessidade é deslocado para o universo do colecionismo, do design, do luxo ou da arte?
A exposição encontra uma de suas referências centrais em Glauber Rocha e em seu texto-manifesto Estética da Fome, publicado em 1965. Para Rocha, a fome não deveria ser compreendida apenas como carência material, mas como experiência histórica capaz de produzir linguagem, conflito e invenção. Mais do que um problema econômico, a fome aparecia como condição estrutural da formação latino-americana e como sintoma das violências herdadas da colonização. Essa perspectiva dialoga também com o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade (1928), para quem a cultura brasileira se constituiria através da devoração crítica do outro. Comer, incorporar e transformar tornam-se operações simultaneamente biológicas, políticas e simbólicas. Em Marmita, a fome deixa de ser entendida apenas como ausência de alimento para tornar-se igualmente fome de reconhecimento, de contato, de prazer, de pertencimento e de futuro.
A atualidade dessas questões encontra eco nos dados recentes da vida social brasileira. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome em 2025, alcançando índice inferior a 2,5% da população em situação de subalimentação no triênio 2022–2024. Ao mesmo tempo, a persistência da desigualdade permanece evidente: dados do IBGE indicam que, em 2024, cerca de 48,9 milhões de brasileiros ainda viviam abaixo da linha de pobreza e aproximadamente 7,4 milhões permaneciam em situação de extrema pobreza. Ainda em 2023, cerca de 64,2 milhões de pessoas residiam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar.
É nesse intervalo entre conquista e ameaça, abundância e privação, que a exposição se inscreve. Se a fome permanece como uma questão estrutural da sociedade brasileira, ela assume hoje formas mais difusas e complexas. A indústria do bem-estar, os regimes de controle corporal, a medicalização da alimentação e a hiperexposição dos estilos de vida transformam o ato de comer em campo de disputa estética, econômica e afetiva.
Ao reunir artistas em torno desse signo aparentemente banal, Marmita propõe uma reflexão sobre os modos pelos quais o Brasil organiza suas economias materiais e emocionais. Entre o recipiente e o corpo faminto, entre a refeição e o desejo, entre a fome e o amor, a exposição investiga aquilo que circula, transborda e permanece impossível de conter. A ode à fome e a privação dos alimentos informam o cenário biopolítico da vida contemporânea, reorganizando a vida simbólica e social: tal objeto torna-se também um fetiche.
Afonso Tostes
Sem título
, 2018
Escultura em madeira | 320 x 23 x 23 cm
Afonso Tostes
Fome
, 2001
Acrílico e grafite sobre lona | 40 x 24 cm (cada)
Alair Gomes
A não história de um chofer
, 1977-1980
Impressão fotográfica sobre papel couché fosco | 10 x 15 cm (cada)
Andréa Hygino
Tipos de comer — arroz, feijão, carne
, 2022
Impressão em papel algodão | 26 x 40 cm (cada)
Anna Bella Geiger
Órgão na Bacia
, 1968
Água-tinta, água-forte e relevo sobre papel | 87,5 x 61,5 x 3,5 cm