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Afonso Tostes, Alair Gomes, Andrea Hygino, Anna Bella Geiger, Bruno Lyfe, Carlos Vergara, Carlos Zilio, Cildo Meireles, Claudia Jaguaribe, Cristina Salgado, Daniel Frickmann, Farnese de Andrade, Fernando Lindote, Ivens Machado, José Paulo, Lenora de Barros, Liana Nigri, Lígia Teixeira, Lívia Flores, Luiza Baldan, Manoela Medeiros, Maria Baigur, Maritza Caneca, Marjô Mizumoto, Nuno Quinhões, Nuno Ramos, Renato Bezerra de Mello, Rodrigo Braga, Rosana Palazyan, Waltércio Caldas, Wanda Pimentel e Yan Braz. MARMITA

Companheira do operário no chão de fábrica e do trabalhador em trânsito pelas grandes cidades, a marmita serviu de emblema político já na campanha presidencial de Eurico Gaspar Dutra, em 1945, quando o “marmiteiro” virou personagem de um dos jingles mais lembrados da história eleitoral brasileira. De lá para cá, o recipiente nunca saiu de cena: condensou, ao mesmo tempo, a precariedade e a dignidade do trabalho, a escassez e a garantia do sustento.

DE 23.Jun.2026 A 08.Ago.2026

Leia o texto da Exposição

MARMITA

Ulisses Carrilho

Marmita toma um objeto coadjuvante da vida cotidiana brasileira como dispositivo para pensar trabalho e desejo. Reunindo artistas de diferentes gerações, num regime transhistórico, a exposição parte da marmita como artefato social capaz de condensar transformações profundas na história cultural do Brasil ao longo do último século.

Entre utensílio doméstico, recipiente cotidiano e tecnologia de sobrevivência, a marmita atravessa regimes distintos de valor. Associada historicamente à classe trabalhadora, aos deslocamentos urbanos e à economia do cuidado, ela emerge na exposição como um objeto cuja circulação permite observar as formas pelas quais a fome, o amor e o corpo foram organizados socialmente no país.

A presença da marmita na vida política brasileira remonta ao início do século XX e foi tema de um dos mais paradigmáticos jingles eleitorais da política brasileira. Durante a campanha presidencial de Eurico Gaspar Dutra, em 1945, o chamado “marmiteiro” já aparecia como figura simbólica do trabalhador urbano em ascensão. Desde então, o objeto passou a ocupar uma posição singular na imaginação nacional: simultaneamente ligado à precariedade e à dignidade do trabalho, à escassez e à possibilidade de sustento.

Ao longo das décadas, entretanto, a marmita sofreu sucessivas transformações simbólicas. Se antes remetia ao operário, ao chão de fábrica ou ao trabalhador em trânsito, hoje ela reaparece como produto de consumo associado à cultura fitness, à administração do corpo e às economias contemporâneas da performance. Paralelamente, a palavra “marmita” foi absorvida pelo vocabulário afetivo e sexual brasileiro, convertendo-se em metáfora para relações não monogâmicas, arranjos informais de desejo e formas ambíguas de pertencimento. Entre alimento e erotismo, entre nutrição e fetiche, o objeto passa a operar como um condensador de fantasias sociais.

Livremente inspirada pela extensa coleção de marmitas em porcelana pertencente à galerista Anita Schwartz, a exposição investiga justamente essa transvaloração tomando partido do acervo da galerista e colecionadora. Como certos objetos migram entre classes sociais, preservando vestígios das estruturas que os produziram? E de que modo a cultura transforma instrumentos de sobrevivência em signos de distinção? Em última instância, o que acontece quando um objeto associado ao trabalho e à necessidade é deslocado para o universo do colecionismo, do design, do luxo ou da arte?

A exposição encontra uma de suas referências centrais em Glauber Rocha e em seu texto-manifesto Estética da Fome, publicado em 1965. Para Rocha, a fome não deveria ser compreendida apenas como carência material, mas como experiência histórica capaz de produzir linguagem, conflito e invenção. Mais do que um problema econômico, a fome aparecia como condição estrutural da formação latino-americana e como sintoma das violências herdadas da colonização. Essa perspectiva dialoga também com o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade (1928), para quem a cultura brasileira se constituiria através da devoração crítica do outro. Comer, incorporar e transformar tornam-se operações simultaneamente biológicas, políticas e simbólicas. Em Marmita, a fome deixa de ser entendida apenas como ausência de alimento para tornar-se igualmente fome de reconhecimento, de contato, de prazer, de pertencimento e de futuro.

A atualidade dessas questões encontra eco nos dados recentes da vida social brasileira. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome em 2025, alcançando índice inferior a 2,5% da população em situação de subalimentação no triênio 2022–2024.   Ao mesmo tempo, a persistência da desigualdade permanece evidente: dados do IBGE indicam que, em 2024, cerca de 48,9 milhões de brasileiros ainda viviam abaixo da linha de pobreza e aproximadamente 7,4 milhões permaneciam em situação de extrema pobreza.   Ainda em 2023, cerca de 64,2 milhões de pessoas residiam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar.

É nesse intervalo entre conquista e ameaça, abundância e privação, que a exposição se inscreve. Se a fome permanece como uma questão estrutural da sociedade brasileira, ela assume hoje formas mais difusas e complexas. A indústria do bem-estar, os regimes de controle corporal, a medicalização da alimentação e a hiperexposição dos estilos de vida transformam o ato de comer em campo de disputa estética, econômica e afetiva.

Ao reunir artistas em torno desse signo aparentemente banal, Marmita propõe uma reflexão sobre os modos pelos quais o Brasil organiza suas economias materiais e emocionais. Entre o recipiente e o corpo faminto, entre a refeição e o desejo, entre a fome e o amor, a exposição investiga aquilo que circula, transborda e permanece impossível de conter. A ode à fome e a privação dos alimentos informam o cenário biopolítico da vida contemporânea, reorganizando a vida simbólica e social: tal objeto torna-se também um fetiche.

Afonso Tostes
Sem título , 2018
Escultura em madeira | 320 x 23 x 23 cm

Afonso Tostes
Fome , 2001
Acrílico e grafite sobre lona | 40 x 24 cm (cada)

Alair Gomes
A não história de um chofer , 1977-1980
Impressão fotográfica sobre papel couché fosco | 10 x 15 cm (cada)

Andréa Hygino
Tipos de comer — arroz, feijão, carne , 2022
Impressão em papel algodão | 26 x 40 cm (cada)

Anna Bella Geiger
Órgão na Bacia , 1968
Água-tinta, água-forte e relevo sobre papel | 87,5 x 61,5 x 3,5 cm