Por toda parte escreverei o seu nome
Expoente da geração pós-Neoconcreta e figura central da contracultura brasileira, o artista Luciano Figueiredo apresenta uma nova série de trabalhos em Por toda parte escreverei o teu nome, que revela um novo momento de sua pesquisa, em que pintura, palavra, cor e linguagem gráfica se articulam em composições de notável precisão formal, revelando um novo desdobramento de sua pesquisa.
A mostra que celebra os 60 anos de trajetória de Figueiredo tem curadoria de Luiz Chrysostomo.
DE 05.Mai.2026 A 13.Jun.2026
Por toda parte escreverei o teu nome
Luiz Chrysostomo de Oliveira Filho
Maio de 2026
No dia 29 de outubro de 1940 em Buenos Aires, o escritor Stefan Zweig proferiu uma icônica palestra. Seu objetivo após anos de estudos, escritos e convívio com artistas, músicos e poetas era investigar o sublime: o mistério da criação artística. Para ele era fundamental submergir no processo de criação em um mundo de embates e descaminhos. Criar é estar alijado de si mesmo, um estado de êxtase (ÉKSTASIS), um ficar fora de si, pois toda concepção de uma obra de arte é um processo interno. O ato de criação, invisível, permite que o nada se reconfigure como algo, “o perecível se transforma em permanente”. Zweig revela que todas as nações e religiões, sem exceção, vinculam o processo de criação com a ideia do divino. Sem esoterismos ou sectarismos ele aponta que a indiferença diante desse mistério impede o estabelecimento de uma verdadeira relação com a arte. Como pode uma pessoa criar uma obra sobre-humana? Como nasce? Flui naturalmente como o vento, explode enquanto tempestade ou racionaliza-se a priori? Esforços intelectuais conscientes não são deméritos, mas se revelam insuficientes para destrinchar sutilezas, surpresas e paradoxos. É preciso ir além.
Nessa nova exposição, Luciano Figueiredo, artista múltiplo, pintor, designer gráfico, poeta, cenógrafo, curador e ex-gestor de importantes instituições culturais, celebra seus 60 anos de atividades. Após a última mostra de relevos em 2025 na cidade de Weimar, Alemanha, antiga sede da Bauhaus, ele reitera não apenas seu domínio absoluto dos meios materiais com que sempre interagiu, mas reafirma sua linguagem sucinta e articulada. Nela novamente atentamos à presença dos jornais, das sobreposições de planos, do intercâmbio de espaços com cores e palavras, das sombras e de suas explorações em chiaroscuros, tão caras à sua pesquisa do cinema noir.
No silêncio e solidão do ateliê, ao longo de quase um ano de intenso e ininterrupto trabalho, formas delicadas de colagens de tiras de papel, manchas de cores e carimbos começaram a se mesclar sobre superfícies brancas, dando vida a uma busca que sempre definiu sua poética. Esse artista experimentalista escavou essências, quase uma arqueologia, estruturas de sustentação e sobreposição de planos que parecem flanar em suspensão. As superfícies deixam de ser inocentes e embutem surpresas, transparências e espantos que somente o artista é capaz de revelar.
Ao recortar suas guias, ou listas de cores, das partes extremas de jornais, Luciano repensa como se dão registros e combinações de matérias pictóricas. Cianos, Magentas, Amarelos e Pretos (CMYK) são para ele mais do que efeitos de cor, alinhamentos, correções de densidades, calibrações ou garantias de consistência para uma reprodução fidedigna.
A seleção das tiras, coladas de múltiplas formas e sentidos, não são simples monocromos intercalados. A manipulação que se segue desorienta e provoca uma releitura desse material bruto, aparentemente estabelecido e tecnicamente definido. Expõe elementos gráficos alternativos, nos remete a um certo neoplasticismo esquecido, restabelece conexões históricas. Ao nos depararmos com tais colagens temos um sentimento de fragmentações que permeiam nossas vidas, nos incitando a pensar quais rumos e direções tomar. Como se daria o resultado de imagens que se fundem de forma caótica? Quais imagens realmente conseguimos enxergar? O conjunto questiona certezas, desordena, desorienta, o oposto da função original de uma guia de cor - não se presta agora para nada, a não ser para uma nova linguagem, um novo exercício gráfico. Consistências de impressão, medidas de resolução e correção desaparecem desse vocabulário.
Mas é nessa mesma investigação que Luciano prossegue. Se depara com mais uma frase de Jean-Luc Godard, em Histoire(s) du Cinéma, retira-a do contexto, decupa-a, se surpreende e traduz. Repara que ao traduzir, ressignifica. Não é mais Godard em francês, assim como as tiras de cor dos jornais perderam sua função original. Como o poeta mexicano Octavio Paz afirmou, toda tradução implica em transformação, invenção, desmonta estruturas culturais, introduz outras dimensões de compreensão e assimilação pelo outro. Ao carimbar, como escrita, a nova frase de Luciano se volta para o elemento pictórico de origem, potencializa as guias e amplia o sentido maior de sua criação. Desafia figurações e abstrações, emula, com palavras e filetes coloridos, sensações que se cruzam.
Ao grafitar nas telas “por toda parte escreverei seu nome”, inaugura campos visuais e de linguagem. Não está necessariamente declarando sentimentos de amor, apego, solidão, perdas ou abandono. A presença dos carimbos remete ao milagre divino da criação de Zweig, do imponderável, do mistério, do inusitado, do inescapável destino do homem de subverter, de se inscrever na história, seja qual for sua identidade, seu propósito, seu nome.
Luciano Figueiredo
Sarabande
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Relevo ROSA, ROSAE nº 1
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 104 x 104 cm
Luciano Figueiredo
Relevo ROSA, ROSAE nº 2
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 104 x 104 cm
Luciano Figueiredo
Relevo ROSA, ROSAE nº 3
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Vitrines, maquetes 1
, 2026
Acrílica sobre papel em caixa de madeira | 100 x 100 x 10 cm
Luciano Figueiredo
Vitrines, maquetes 2
, 2026
Acrílica sobre papel em caixa de madeira | 100 x 100 x 10 cm
Luciano Figueiredo
Cinegrafia
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
CMYK Croma
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Sem título
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Cromografia
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 50 x 70 cm
Luciano Figueiredo
Gemini 2
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 45 x 100 cm
Luciano Figueiredo
Gemini 1
, 2026
Acrílica sobre jornal e madeira | 45 x 100 cm
Luciano Figueiredo
Rotativas nº. 1
, 2026
Jornal e acrílica sobre jornal e tela | 81 x 81 cm
Luciano Figueiredo
Rotativas nº. 2
, 2026
Jornal e acrílica sobre jornal e tela | 61 x 61 cm
Luciano Figueiredo
Cor, plano, suspensão nº 2
, 2016
Acrílica sobre madeira | 120 x 160 cm
Luciano Figueiredo
Cor, plano, suspensão nº 4
, 2014
Acrílica sobre madeira | 100 x 100 cm